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Como incentivar a Literacia Familiar

Como incentivar a Literacia Familiar

           A Literacia (ou letramento) Familiar é um conjunto de práticas e experiências relacionadas à linguagem, tais como oralidade, leitura e escrita, vivenciadas pelas crianças junto com a família, pais ou responsáveis, no ambiente doméstico, e que são fundamentais para o desenvolvimento infantil. Nesse contexto, entende-se que a parceria entre escola e família é essencial no processo educativo, a fim de potencializar as capacidades das crianças por meio de novas ferramentas, novos conhecimentos que possibilitem e facilitem o caminho da aprendizagem.

           Estudos na área da psicopedagogia e da neurociência comprovam que estímulos, afeto, vínculo e o aprendizado são fundamentais para cada indivíduo, influenciando diretamente na vida adulta. Por isso, a prática da Literacia Familiar traz benefícios inimagináveis para o bem-estar presente e futuro das crianças, tornando-as estudantes bem-sucedidos e, consequentemente, melhores profissionais, adultos críticos e aptos a discernir sobre a realidade em que vivem. Na contramão desses dados, algumas pesquisas também apontam que as famílias mais pobres interagem menos com suas crianças, afetando o desenvolvimento linguístico e intelectual delas. No entanto, essa realidade pode ser modificada, com o trabalho conjunto entre escola e família.

           Para potencializar a Literacia Familiar e tentar solucionar essa problemática apontada, professores e gestores são peças fundamentais no processo, pois, ao conhecer e analisar a relação entre família e escola, devem ter em mente que esta deve ocorrer de maneira simples, natural e favorável às partes envolvidas, por meio de estratégias de aproximação que utilizem da tecnologia, mas sem renunciar ao contato físico.

           Para tanto, gestores e professores devem elaborar projetos que visem a ampliação do saber da comunidade escolar, interagindo com os pais e responsáveis através de palestras online e da divulgação dos benefícios da Literacia Familiar, promovendo uma maior interação dos pais com a vida escolar da criança, discutindo e realizando reuniões periódicas, levando-os a entender melhor e mais de perto as reais necessidades e dificuldades que seus filhos enfrentam. Nos encontros, devem pedir sugestões e ouvir a todos, podendo, desta forma, traçar planos e metas para melhorar a interação e participação das famílias na educação, promovendo ações que possibilitem a ampliação do bem-estar emocional e físico das crianças. A família, mais do que nunca e como sempre deve ser, precisa andar de braços dados com a escola, ao mesmo tempo em que a escola deve proporcionar esta relação.

O papel da família no desenvolvimento da literacia

          A professora e pesquisadora educacional Catherine Snow, referência para as políticas de alfabetização do MEC, sugere atitudes simples que muito ajudarão aos pais, responsáveis e cuidadores na implementação da Literacia Familiar. Segundo Snow, inclusive adultos com baixa escolaridade ou analfabetos contribuem com a formação das crianças, pois não é necessário que a família alfabetize (papel da escola), mas ajude a ampliá-la ao ambiente familiar.

            Para tanto, práticas simples de conversas e brincadeiras, como responder as perguntas dos filhos, ler imagens e palavras em livros ou preparar uma receita em família, são algumas das possibilidades.   

            Nesse contexto, segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018, p. 42):

As experiências com a literatura infantil, propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo. Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua.

            Seguindo essa linha de raciocínio, o Ministério da Educação (MEC) criou, em 2019, o programa Conta para Mim, que integra a Política Nacional de Alfabetização (PNA) e auxilia na parceria escola e família, propondo um maior engajamento dos pais e responsáveis na leitura para bebês e crianças. O programa enfatiza a conversa e o diálogo com a criança para o desenvolvimento da linguagem oral. A ideia é que a criança deve aprender a se tornar um ser pensante, com habilidades linguísticas que facilitem sua interação com o mundo ao seu redor. Pais que conversam muito com suas crianças sobre assuntos variados, ajudam a construir o vocabulário e conhecimentos que possam ser usados por elas quando ingressarem no mundo da leitura. Essa é uma das ferramentas mais precisas da educação: o ato de conversar com as crianças estimulando-as a pensar e interagir.

            Com o intuito de indicar possíveis caminhos para o desenvolvimento da Literacia Familiar, indicamos dez sugestões fundamentais para serem seguidas pelos pais, responsáveis ou cuidadores das crianças:

Disponível em: <http://alfabetizacao.mec.gov.br/images/conta-pra-mim/livros/versao_digital/o_vento_versao_digital.pdf>. Acesso em: 04 mai. 2021.

            Cada uma dessas sugestões pode e deve virar tema de pequenos projetos adaptados e inclusos na comunicação familiar.

A contação de histórias                                                             

            Os livros infantis, por exemplo, são importantes aliados da literacia familiar, pois proporcionam infinitos temas de conversação com ideias que dificilmente viriam à tona no dia a dia. A obra de Monteiro Lobato, por exemplo, é uma excelente opção para se ler em casa, pois nela há personagens femininos fortes e famílias como as de hoje em dia. No Sítio do pica-pau amarelo, o núcleo familiar é liderado por uma mulher, Dona Benta, que exerce sua autoridade sem deixar de ser acessível. Os pais de Pedrinho quase não são citados e Dona Benta e Tia Anastácia não são casadas. Personagens, no mínimo, modernas e que em muito têm a ver com as famílias dos dias atuais. Lobato também enaltece e defende a natureza, o que é um assunto de fundamental importância para a vida e os cuidados com o planeta.         

            Outo exemplo é o livro “Um grande amigo”, de Nádia Larissa Pontes, que pode ser lido em voz alta ou pode ser discutido apenas olhando e lendo as imagens, pois apresenta ideias de solidariedade, amizade, gentileza, cuidado com os animais e esperança.  

            Um dos pontos fortes da literatura infantil não é somente ensinar as crianças a ler, mas sim oferecer oportunidades interessantes de diálogo, ajudando a construir a realidade de mundo. A realização de projetos de leitura idealizados pela escola, tendo como mediadores professores e gestores, é uma ótima iniciativa. Para citar projetos, encontramos: “A Mala Viajante”, em que a criança escolhe um livro na biblioteca da escola, põe em sua mala ou sacolinha decorada e viaja com ela até a sua casa, onde vai ler em família; ou “A árvore da poesia”, que é uma árvore desenhada ou em maquete, onde as crianças penduram poemas ou cordéis para formar as folhas; eventos e feiras literárias com autores locais também são incentivos mais do que eficazes para a Literacia Familiar.

            É preciso construir uma ponte entre a literatura infantil e as famílias, desenvolver nas crianças a paixão literária, trabalhando com parlendas, músicas, poesias, lendas e contos. Essa ponte também pode acontecer por meio virtual, usando vídeos e recursos visuais para estimular o contato com as narrativas; incentivar as crianças a contarem histórias conhecidas por elas, e a criarem suas próprias histórias, com imaginação e entusiasmo, nas brincadeiras com bonecos e fantoches; valorizar as canções e danças populares, que além de serem muito divertidas, são uma ótima forma de apresentar às crianças nossa rica cultura. Assim, com o apoio e incentivo vindos das principais bases que sustentam a construção do indivíduo, o que se terá no futuro será um adulto responsável, sábio e consciente do seu papel no mundo.                                 

            Seguindo essa concepção humanizada, política, ética, estética, histórica, social e cultural de ensino, o filósofo e professor Paulo Freire diz que “se a educação sozinha não muda a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Compreendemos, então, que a educação, direito básico assegurado pela nossa Constituição, é fundamental para o progresso social. Portanto, almejamos que a escola e a família, juntas, sejam a fortaleza necessária para a construção de novas abordagens de conhecimento, de criação, de saber, de desenvolvimento e de evolução.

Saiba mais!

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2019.

LAJOLO, Marisa; CECCANTINI, João Luís. Monteiro Lobato, Livro a Livro. São Paulo: Editora Unesp, 2008.     

PONTES, Nádia Larissa. Um Grande Amigo. 1 ed. João pessoa/PB: Editora Grafset, 2019.                                                                   

Ana Maria da Conceição Ribeiro Souza

Pós-graduada em Educação Especial (IESP), Graduada em Pedagogia (URRN), atua como professora da Educação Infantil (PMJP). Acredita na leitura como ferramenta para grandes mudanças.

         

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